Repórter Historiador

Heroína de dois mundos

Anita Garibaldi

Textos| Celso Martins (Brasil) e Anita Martins (Itália)
Fotos| Marco Cezar (Brasil) e Anita Martins (Itália)


Na boca do povo


 O nome está por todo canto, no aeroporto e na lotérica, da loja de calçados ao restaurante, passando por espaços públicos destinados a sua memória e à memória de Laguna. Num momento de asfixia da infra-estrutura turística devido as obras de duplicação do trecho sul da BR-101, o recurso aos feitos de Anita Garibaldi é cada vez mais presente. Isso torna a personagem mais “atrativa” do que as praias do município, desde o Gi e Mar Grosso até o Farol de Santa Marta.
Esse foi o primeiro impacto após nossa chegada a Laguna no final da manhã do dia 2 de setembro último. O segundo foi ver a Casa de Anita repleta de alunos do ensino fundamental e dois jovens estagiários recebendo os visitantes, aptos a dialogar sobre os principais momentos da vida de Anita. “O que mais chama a atenção é a presença de Anita junto a seu marido Garibaldi e as tropas, sempre lutando”, diz Gabriel Silva, 17 anos.
 Franciele Monteiro, 17, atua ao lado de Gabriel. Os dois passaram por um treinamento ministrado pela Prefeitura local, tendo como referência principal um texto de Wolfgang Rau, principal pesquisador da vida de Anita, com versões em português, espanhol e inglês. Gabriel e Franciele explicam que a lagunense nascida em 1821 era filha de Bento Ribeiro da Silva (São José dos Pinhais-PR) e Maria Antônio de Jesus Antunes (Lages-SC). E também que até hoje não foi localizada a certidão de nascimento de Anita, tendo sido obtida uma certidão tardia por via judicial, indicando a data de 30 de agosto de 1821. Não é a correta, mas serve como indicação.
 E o primeiro casamento de Anita? “O primeiro marido de Anita foi o melhor sapateiro da Laguna, Manoel Duarte de Aguiar”, explica Franciele. “Ele foi para a guerra quando Anita deixou Laguna. Mais tarde ela soube no Uruguai que ele havia morrido”, acrescenta. Foi quando se casou com Giuseppe Garibaldi, a quem conhecera em julho de 1839, em Laguna.
Garibaldi chegou com as forças farroupilhas de Davi Canabarro e Giuseppe Garibaldi em meio a levantes em vários pontos da região sul de Santa Catarina e adesões ao longo do caminho. Os próprios moradores de Laguna se rebelaram. O dia 22 de julho de 1839 foi decisivo. No dia 29 foi proclamada a República Catarinense, durante ato na Câmara de Vereadores, mesmo prédio do atual Museu Anita Garibaldi. A experiência durou até o dia 15 de novembro do mesmo ano, quando as forças imperiais reconquistaram a cidade.
 Após ter conhecido Garibaldi, Anita não mais se separou dele. Seguiu com as forças farroupilhas até Lages, depois o Rio Grande do Sul. Mais tarde foi para o Uruguai e a Itália, vivendo momentos felizes, mas passando frio, fome e sede, provações de toda ordem, lutando, fugindo. O primeiro filho, Menotti, nasceu em 1840 em Mostardas (RS). Numa noite, a mãe teve que sair com a criança no colo, a cavalo, para fugir à perseguição. É a cena reproduzida numa estátua em Roma. Em Montevidéu, onde se casou com Garibaldi em 26 de março de 1842, nasceram Rosita (faleceu com 36 meses de vida), Teresita e Riccioti. (CM) 

Foto 1| Local onde foi proclamada a República Catarinense em 29 de julho de 1839.
 

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Cronologia de Anita e Giuseppe


 4 de julho de 1807 |
Nascimento de Giuseppe, filho do capitão-de-mar Domingos Garibaldi e Rosa Raimundi, em Nizza, Itália (hoje Nice, na França).

1821 |
Nascimento de Ana Maria de Jesus Ribeiro (Anita), em Laguna-SC.

12 de junho de 1831 |
Envolvido em atividades “subversivas”, Giuseppe é condenado à morte e foge, indo para Marselha e Norte da África.

30 de agosto de 1835 |
Anita se casa em Laguna com o sapateiro Manoel Duarte de Aguiar. No dia 20 de setembro começa a Revolução Farroupilha.

Janeiro de 1836 |
Chega ao Rio de Janeiro o cidadão “Joseph Pane”, conforme um passaporte francês apresentado por Garibaldi.  

 12 de dezembro de 1836 |
Garibaldi e o jornalista e estudante de direito Luigi Rossetti recebem uma “Carta de Corso” do Governo da República Riograndense (Farroupilha). 

Fevereiro de 1837 |
Garibaldi e Rossetti são levados à presença de Bento Gonçalves, principal líder farroupilha, preso no Rio de Janeiro.

8 de março de 1938 |
Lages adere aos rebeldes farroupilhas. No dia 27 de abril Garibaldi e Rossetti se apresentam às autoridades da República Riograndense. O italiano se dedica à construção de embarcações num estaleiro rebelde em Camaquã.

 11 de junho de 1839 |
Garibaldi transporta por terra os barcos Farroupilha e Seival até o Oceano Atlântico, sobre rodas, puxados por cem juntas de bois. No dia 21 de julho, com o Seival, entra pela barra do Camacho e chega até a foz do Rio Tubarão, em frente a cidade de Laguna. No dia 22 a cidade é conquistada pelos rebeldes. Anita e Giuseppe se conhecem no dia 27. No dia 29 é proclamada a República Catarinense. Anita participa do primeiro combate.

15 de novembro de 1839 |
Laguna é retomada pelas forças imperiais. Anita atua na resistência.

14 de dezembro de 1839 |
Anita, Giuseppe e outros rebeldes chegam a Lages, onde assistem à Missa do Galo no dia 24. É a lua-de-mel deles.

Janeiro de 1840 |
Combate em Forquilhas (Capão da Mortandade), perto de Curitibanos. Anita se perde de Garibaldi e percorre, sozinha, cerca de 80 quilômetros de florestas, campos e rios. Os dois se reencontram em Vacaria (RS), oito dias depois, seguindo para o litoral gaúcho.

 Junho de 1841 |
Giuseppe e Anita chegam a Montevidéu.

26 de março de 1842 |
Casamento de Giuseppe e Anita na capital uruguaia.

27 de dezembro de 1847 |
Anita embarca com os três filhos para a Itália. Chegada em 2 de março de 1848 em Gênova.

21 de julho de 1848 |
Garibaldi chega a Nizza (Nice), após 11 anos de ausência. Logo se integra às lutas pela unificação italiana, acompanhado de perto por Anita.

 2 de julho de 1849 |
Garibaldi e seus legionários deixam Roma derrotados. Começa uma retirada que vai terminar no dia 4 de agosto em Mandriole (Ravena), com a morte de Anita. Garibaldi segue para novo exílio. Voltou a se casar mais três vezes.

2 de julho de 1882 |
Vitorioso em sua luta pela unificação da Itália, morre Giuseppe Garibaldi. Está sepultado na ilha de Caprera.
 
Fonte| Vida e morte de José e Anita Garibaldi. Wolfgang Rau. São José-SC: Edição do Autor, 1989. 

Fotos 5 e 6| Representações do momento em que Garibali e Anita se conheceram.
Foto 7| Giuseppe Garibaldi.
Fotos 8 e 9| Barra da Laguna, local de combate de 15 de novembro de 1839.


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As relíquias de Wolfgang Rau


 Depois de Garibaldi e suas Memórias ditadas a Alexandre Dumas, a principal fonte de informação sobre Anita Garibaldi é o arquiteto Wolfgang Rau, cujo acervo reunido ao longo de décadas pode ser visto na Casa Pinto Ulysséa, em Laguna. Quem nos recebe ali é outra estagiária, Chaiane Oriano da Silva, 17 anos, cujo sonho é fazer um curso superior de enfermagem.
“Todo dia aparece alguém atraído pelo nome do professor Rau”, explica Chaiane, cuja atenção é interrompida por um barulhento grupo de alunos do ensino fundamental. Ela pára e olha. O professor que os acompanha dá algumas explicações. “Chega gente de todo lugar, até do México, da Itália e do Japão”, acrescenta. “Eles dizem que o Rau é o historiador mais completo da vida de Anita Garibaldi”.

 Na mesma Casa Pinto Ulysséa, funciona a Associação de Artesãos Nova Terra, cuja vice-presidente, Júlia Guedes, acompanha a estagiária Chaiane numa discussão: o local de nascimento de Anita, motivo de polêmica até hoje. Que nasceu em Morrinhos (quase) todos concordam. Morrinhos de Mirim (hoje Imbituba) ou de Tubarão? “Não importa! Tudo era Laguna naquele tempo”, responde Júlia rapidamente. (CM)

Foto 10| Casa Pinto Ulysséa , perto da Carioca, abriga acervo de Wolfgang Rau.

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O acervo



 Técnicos da Fundação Catarinense de Cultura vão realizar um levantamento das cerca de três mil peças do acervo de Wolfgang Rau, entre desenhos, pinturas, selos, fotografias, recortes de jornais, jornais, cartas, manuscritos, estátuas e estatuetas, artefatos bélicos, centenas de livros e milhares de documentos.
É nesse meio que vamos encontrar as principais informações sobre as andanças de Anita pela Itália. Primeiro como uma espécie de embaixadora do marido, tendo ido na frente com os filhos. Mais tarde se integrou ao esforço de unificação da Itália, reprimido violentamente na ocasião. O que ocorreu após a sua morte também foi meticulosamente pesquisado por Rau.
O acervo foi adquirido há cinco anos pelo Governo do Estado e cedido em comodato à Fundação Lagunense de Cultura. Inicialmente permaneceu sob a guarda do escritório local do Iphan, indo então para a mesma Fundação, onde ficou exposto e acessível à pesquisa, sendo deslocado posteriormente para a Casa Pinto Ulysséa.
O resultado prático da avaliação do acervo pode ser a sua doação em definitivo para o município de Laguna. “Quando o material foi entregue cada peça recebeu uma avaliação e isso vai ser conferido agora”, explica a conservadora e restauradora do Ateliê de Conservação e Restauração de Bens Culturais da Fundação Catarinense de Cultura, Sara Beatriz Dutra e Silva Fermiano. (CM) 



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Fontes principais

 - Anita Garibaldi – O perfil de uma Heroína Brasileira. Wolfgang Ludwig Rau. Florianópolis: Edeme, 1975. 
- Memórias de Garibaldi. Alexandre Dumas. Porto Alegre: L&PM, 1998.

Outras fontes

- A Heroína Brasileira Anita Garibaldi. Henrique Boiteux. Rio de Janeiro: E. Bevilacqua & C., 1906.
- República Catharinense - Notas para a sua história. Henrique Boiteux. Rio de Janeiro: Xerox, 1982.
- De Sonhos e Utopias... Anita e Giuseppe Garibaldi. Yvonne Capuano. São Paulo: Melhoramentos, 1999.
- Aninha virou Anita. Celso Martins, Florianópolis: A Notícia, 1999.
- Anita Garibaldi – Uma heroína brasileira. Paulo Markun. São Paulo: Editora Senac, 1999.

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A atual casa de Anita

Texto e fotos| Anita Martins

 Entre as ruas estreitas tomadas pelas folhas secas do outono do monte Gianícolo, na cidade italiana de Roma, descansam os restos mortais de nossa Ana Maria de Jesus Ribeiro, mais conhecida como Anita Garibaldi, a heroína dos dois mundos, que no Brasil esteve à frente da Revolução Farroupilha e na Itália tornou-se mulher símbolo da luta pela unificação do país. Do outro lado do oceano, a figura de Anita é tão venerada que um monumento erguido em sua homenagem atrai turistas de todos os lugares do mundo.
No último dia 19 de setembro, um grupo de brasileiros, que mais parecia um bloco carnavalesco vestindo camisetas verdes com a bandeira do Brasil bordada em lantejoulas, visitava o local quando me aproximei. Assim que comecei a fotografar, uma senhora perguntou: - Brasileira? Respondi que sim. E ela, rapidamente, se apresentou: - Prazer, eu sou Telma. Fiz o mesmo: - Prazer, sou Anita. Nem cheguei a explicar que a escolha do nome vem da paixão do meu pai pela história da personagem e Telma disse: - Nossa, que emoção encontrar uma Anita aqui.
 Emocionante mesmo é perceber essa valorização de uma brasileira no exterior. A chamada Piazzale Anita Garibaldi guarda o túmulo e um monumento com imagens de sua vida. A estátua principal mostra o momento em que, na ausência de Garibaldi, Anita precisa fugir de um ataque surpresa a Mostardas (RS). A cavalo, ela leva nos braços o primeiro filho, Menotti, nascido havia apenas 12 dias. Nas laterais da construção, cenas da guerreira na Itália orientando uma tropa, cuidando de feridos em uma batalha e sendo carregada por Garibaldi nas horas que antecederam sua morte na cidade de Ravena.

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Sofrimento pós-morte


 Até ser colocado nessa praça, porém, o corpo de Anita foi enterrado outras seis vezes. A primeira foi às pressas, em 1849, num pasto distante cerca de 800 metros da casa onde faleceu. Antes da morte dela, Garibaldi já havia ido embora. Dois empregados da fazenda que abrigou o casal em fuga fizeram uma cova rasa, onde tombaram o cadáver. Seis dias depois, uma menina que andava pela localidade encontrou uma mão humana dilacerada aflorando da grama. A polícia foi chamada. Ninguém conseguiu reconhecer o corpo. E Anita foi sepultada como "mulher desconhecida".
 Dez anos depois, seus ossos foram exumados secretamente por revolucionários aliados a Garibaldi, que na seqüência conseguiu a guarda deles. Com os restos mortais de Anita, que eram um emblema dos ideais da unificação, ele percorreu meia Itália. Em 1852, enterrou-os no cemitério de Nice (atualmente França), ao lado da mãe. Somente no dia 2 de junho de 1932, o caixão foi transferido para Roma por solicitação de Benito Mussolini, que quis usar politicamente a imagem de heroína. Coberto por coroas, foi levado até o monumento atual em uma procissão, que teve a exibição de faixas com dizeres patrióticos e a participação de quase 50 mil pessoas, inclusive do neto de Garibaldi e Anita.
 Apesar do corpo estar bem guardado, existem dois movimentos para tirá-lo de Roma. Um pede sua ida para a Ilha de Caprera, onde Garibaldi está enterrado. Outro pretende abrigá-lo em Laguna (SC), sua cidade natal. Descendentes de Anita acreditam que ela deve ficar junto do marido ou, pelo menos, continuar na Itália. A bisneta Annita Garibaldi Jallet explicou o porquê em entrevista ao jornal A Notícia, em 1999: "Anita é muito admirada na Itália. Ela é considerada por nós como a mãe da Pátria. O pai é Giuseppe. Há muitas mulheres com desempenhos notáveis ao longo da história italiana. Mas só Anita pegou em armas para defender os princípios de justiça e liberdade".



 

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